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Blog de Albenísio

Artigos, Entrevistas, Reportagens, Crônicas e outros textos

Albenísio Fonseca

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Jornalista, poeta e compositor
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July 05

Narcisismo microscópico

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Narcisismo
In, A Tarde Cultural - 04.07.2009

ALBENÍSIO FONSECA 
albenisio@yahoo.com.br

É quase inacreditável, mas aqueles pequenos espelhos ovais ainda existem, melhor, subsistem. Reencontrá-los numa loja de bijuterias foi como acionar a maquinaria da memória, transitar no túnel do tempo de volta à infância. Lembrei de sujeitos se deliciando com aquelas mulheres nuas posando no forro, na contraface. Miravam muito mais às mulheres que a si próprios. Havia os que faziam coleção: louras, morenas, ruivas. Negras eram raridades, num claro reflexo do preconceito. O estímulo à “masturbação da imagem”, o retoque rápido de um ideal de si, acessório imprescindível para narcisos da modernidade, era a imagem – direta e invertida –, proporcionada pelos pequenos espelhos ovais.

Fetiches. Permitiam a visão parcial do corpo. Sensações fragmentárias. O riso pela metade. Apenas um olho a cada mirada. Bric-a-brac da sedução, kitsch, caco sucateado dos aparelhos produtores da fascinação e do desejo. Ideais para espremer cravos, espinhas e provocar reflexos com o sol. O brilho remetido à distância. Projeções e provocações. A superfície especular, ovalada, proporcionando o ajuste do penteado. A otimização da imagem. Contemplação Exacerbada. Narcisismo microscópico. E aquelas mulheres ali, impressas com toda a carga de um erotismo travesso – duplo de calendários expostos em barbearias e borracharias. Precursoras da própria nudez em revistas masculinas. Sorridentes, com os seios e o sexo à mostra, em primeiro plano. Anteriores ao cinema pornô. Ícones do prazer e do poder masculinos.

Objetos. A mulher, antes. E, somente depois, espelho. O que se deseja ver, senão o próprio desejo? Ali estava, oval, a um só tempo, pornográfico, estético e acessível, táctil, sedutor, pedagógico. Melhor que os “catecismos” e outros manuais de introdução à sexualidade. Espécie de estampas Eucalol do escracho.
Microuniverso de imagens ilustrativas, suas capas ou forro não se restringiam à sedução com nudez escancarada. Um repertório de imagens com escudos de times de futebol, paisagens bucólicas, santos católicos, artistas e animais ferozes ou domésticos compunha o processo de interação com o imaginário social.

Dispostos às dezenas, como aparelhos de TV, no coração de vitrines, em tabuleiros de camelôs, pareciam ímãs atraindo narcisos. Manipulados por usuários ávidos, os espelhos ovais eram instantâneos, como se diria, hoje, de um celular: em lugar de comunicar através da fala, possibilitava o acabamento, a correção, o retoque da imagem, ou da memória da imagem. Tornar-se-iam facilmente recomendáveis como ideais para assessores de políticos em campanha, empresários, embaixadores.

Justificando-se, também, é certo, pelo fato de que todas as formas portáteis têm, antes, um caráter aristocrático. Ecologicamente corretos, os espelhos ovais já ocuparam mesmo momentos de evidência na transitoriedade cíclica da moda, usados por jovens, crianças, idosos, e tantos mais, chofer de caminhão, taxistas, balconistas, muitos artistas, bancários, ciganos e contrabandistas. Rapidamente acessível nas bolsas de senhoras e domésticas, recatadas e atrevidas, era um acessório imprescindível.

Uma máquina minimalista de investimento na construção da personalidade e na capacidade de fascinar. Batons e pentes acompanhavam a utilização do pequeno espelho. Dado o cuidado e a intimidade com que costumava ser conduzido era extremamente visível o quanto havia de mais afetividade e simbiose entre o “espelho/objeto/mercadoria/ aparelho/máquina” e seu proprietário que entre corpo e mente, numa aliança com a “ideação reclusa” em cada um, como diria o filósofo Evaldo Coutinho, em seu O lugar de todos os lugares, editado pela Perspectiva.

“Narcisos afogados na paixão pela imagem”, acrescentaria o professor gaúcho Donaldo Schuler, fazendo trafegar o seu Narciso Errante, estudo publicado pela Editora Vozes. Como o Narciso de Ovídio. Ou, do mesmo modo, em plena contemporaneidade, seduzidos pelos incessantes simulacros a brotar na luminosidade das telas de vídeo, em televisões e computadores.

Tomemos a expressão “o visual é essencialmente pornográfico”, de Fredric Jameson, estudioso do marxismo e da pós-modernidade. Como sabemos, “graças às manobras de prestidigitação da publicidade”.

Na mesma linha (marxista e pós-moderna), o professor Muniz Sodré assegura o quanto “ver é também tocar, absorver”. Pornográficos, e para além da estipulação de Jameson, os espelhos ovais proporcionam todo o direito a contemplar bundas, seios, xoxotas – em oferta, com ar de convite à fruição e, imediatamente, no outro lado, na outra face, o próprio rosto, encarando-se num cara a cara.

É o desejo que está fixado na superfície visível da imagem/suporte/capa, quase-envólucro, epiderme do produto em circulação na sociedade utilitarista (e não apenas no caso dos espelhos ovais). Sim, o “espelhinho” proporciona um narcisismo recarregável a cada nova mirada.

Funcional, como um relógio descartável. Um dispositivo de arrebatamento. Cuja finalidade essencial é a fascinação irracional, mas objetivada, num paradoxo especular. Para Jameson, “a sexualização dos objetos, desencadeando a mercantilização universal das coisas e dos seres, num processo geral de reificação do mundo pela sua capa visível, estabelece dimensões estéticas que determinam o estatuto da Era da Imagem. Tudo é estética, design. Tudo é cultura. Redes de imagens”. A hipótese central dele é a de que “as obras de cultura de massa não podem manipular a menos que ofereçam um grão genuíno de conteúdo, como paga ao público prestes a ser manipulado”.

Nos espelhos ovais estão embutidos, e deles podem emergir mais que objetos e seres – como do ilusionismo da cartola de um mágico ou da computação gráfica – mas sentimentos e sensações como espantos, vaidades, receios e prazeres do autorreconhecimento e reconhecimento das coisas familiares. Sua manipulação admite circunvoluções, a exemplo de uma câmera de cinema ou vídeo, permite diferentes ângulos de visões (com direito a plongée e contreplongée, mesmo quando só é possível o close-up) em torno do sujeito, numa autêntica envolvência narcísico-afetiva, capitulando à Esfinge da nossa (!) exclusiva excitação retínica.


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Albenísio Fonseca é jornalista, poeta e compositor *
* Ouça algumas músicas de Allben em http://www.myspace.com/albenisio

May 16

O não-lugar do Palácio Thomé de Souza



Em foto antiga, a fachada ainda preservada.  

Palácio Thomé de Souza, 23 anos

Albenísio Fonseca

Hoje, 16 de maio, o Palácio Thomé de Souza, isto é, a versão contemporânea da sede da Prefeitura de Salvador, completa 23 anos de "edificado", pelo ex-prefeito Mário Kertész, com base em projeto do arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé.
Com a luminária frontal, expositora do dístico e logomarca do município, queimada por curto circuito, desagravo térmico e visual do escapamento do ar condicionado sob a edificação, esgotamento sanitário comprometido, desgaste dos sistemas elétricos, telefônicos e de captação da água pluvial, além de infiltrações que encharcaram carpetes e despacharam o Executivo, a Casa Civil e a Secretaria de Comunicação para outros prédios, pode ser que - "A cavaleiro do Atlântico", como consta na placa inaugural - o palácio não resista até o final da atual gestão.
Em 1986, o prefeito Mário Kertész relocou a Prefeitura, do Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas, para a Praça Thomé de Souza (também chamada de Praça Municipal), primeira praça da cidade. Erguido em 15 dias com pré-moldados sobre a ignomínia da demolição dos prédios da Biblioteca Pública e da Imprensa Oficial, e em cujo vazio construiu-se um estacionamento subterrâneo cognominado “Cemitério de Sucupira”, o prédio contrasta seu estilo contemporâneo frente à arquitetura neoclássica do Palácio Rio Branco, a art decó do Elevador Lacerda e o caráter neocolonial da Câmara de Vereadores.

A locação seria temporária, segundo solicitação do ex-prefeito ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Kertész argumentava que o destino final da sede do Executivo seria um dos casarões abandonados do Centro Histórico. Sob tal condição, sem parecer mais detalhado, construiu-se o Palácio Thomé de Souza.
Em 2004, o Ministério Público Federal entrou com ação civil pública denunciando a intervenção arquitetônica, e acusando o IPHAN de omissão. O juiz deu ganho de causa, obrigando a retirada do prédio em 60 dias a contar da posse do novo prefeito.
Omisso ao longo desses 23 anos, o IPHAN falhou ao não usar os atributos e responsabilidades que a União lhe outorga, e falha a Prefeitura, seus velhos e novos ocupantes, ao desrespeitar decisão judicial, por prescindir da mesma como se acima destas questões, e dando a construção por sancionada pelo tempo, em uma espécie de usucapião à moda do poder público.
O efeito das chuvas sobre o Palácio, agora, já conta com laudo técnico estimando a restauração em dois meses, período em que o prefeito João Henrique permanecerá ao abrigo da Secretaria da Educação, em Brotas; a Casa Civil em prédio da Procuradoria Geral do Município, na Ajuda; e a Secretaria de Comunicação, no Edifício Oxumaré, na Ladeira de São Bento, onde funciona sua redação.
Sob as asas da pomba, nosso simbolismo reverência (sic) à  Arca de Noé, no limite do Sítio Histórico de Salvador, declarado patrimônio nacional em 1959, e da Humanidade, em 1985, resta citar nosso dístico para gastar o latim: Sic illa ad arcam reversa est (“Assim ela retornou à arca”).

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Albenísio Fonseca é jornalista (MTE: 2834 - DRT/BA)

albenisio@yahoo.com.br

April 28

Violência na TV

http://www.pibmairipora.com.br/imagens/tv.jpg

Violência na TV

Albenísio Fonseca

O "il mondo cane" das metrópoles pode servir ao sensacionalismo barato e perverso que motiva uma audiência. Mas há um limite de tolerância à falta de ética e respeito a princípios consagrados à pessoa e ao exercício da profissão, que recusam como jornalismo a abordagem na forma de interrogatório torturante, utilizado por supostos repórteres, nos programas de tevês sobre a violência, como método de intimidação ao direito de ampla gama de miseráveis - oh! Victor Hugo.

Programas que atentam, com a crueldade dos seus fatos, para o bem estar social, e sob a complacência permissiva das autoridades policiais e jurídicas. "Comunicadores", radialistas (?),  a usar do livre direito de expressão da nossa tênue democracia, para replicar a violência seriada; o escabroso, como sedução. A adotar métodos coercitivos, sentenciando, antes de qualquer veredito.

As emissoras - concessão pública, diga-se - a dispor em suas grades de programação de tribunais de inquisição da correição pública, a espetacularizar a violência do drama contemporâneo. Cuja antípoda, suposta justificativa, pasme, é, evidentemente, a moral social e os bons costumes.  E eis que se consagram à luz do Dia. 

"Tem jornal popular que
nunca se espreme porque pode derramar.
É um banco de sangue encadernado,
já vem pronto e tabelado,
é somente folhear, e usar"

Dos anos 60 da Tropicália, de Tom Zé, desenvolvemos (!) do ponto de vista mesmo de uma História da Imprensa - oh! Gutemberg -  para uma ação de mídia televisiva em escala de alcance massivo extraordinária. Mas, para que? Para atender ao gosto popular mais relés? À sede pela barbárie que inunda o cotidiano? O baixo instinto da platéia, a ser saciado pelo dantesco? O estupor tornado em prazer? A desgraça como deleite? Filmes de violência requerem horários de exibição. O real, em sua face mais cruel, psiquiátrica, digamos, ferindo o Estatuto da Criança e do Adolescente, não? 

Ser visto é tão humano quanto ver, dirias - oh! Dante - no inferno da vida banalizada. A Justiça titubeia. Restringe-se à ação pontual. Convertido numa espécie de horário nobre do terror, os programas devem, ao menos, sair do meio-dia. Ampla programação cultural no Brasil só é exibida em altas horas, inacessíveis ao grande público, incompatíveis com um compromisso público pela cultura, pelo avanço das "tecnologias" da consciência cidadã.

O "fenômeno" desses programas não é apenas baiano. No balanço geral, temos na mira que falta ao País um projeto de Nação, e desde há muito. Adepto da democracia, da qualidade, do bom senso e do respeito ao direito e à dignidade do ser humano, sou totalmente avesso à censura, ao totalitarismo, à violência e à criminalidade - oh! Newton. Defender uma tevê comprometida com reais valores civilizatórios nos faz clamar que os procuradores convençam mesmo aos juízes – sob o espírito das leis – oh! Montesquieu - a passarem o rodo nesse tipo de pretenso entretenimento.

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Albenísio Fonseca, jornalista

albenisio@yahoo.com.br



April 13

Festival de Arte Negra



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Arte Negra, entre a força e o charme


O Brasil é o país convidado de honra da terceira edição do Festival Mundial de Arte Negra, a ser lançado oficialmente, em terras brasileiras, dia 25 de maio, em Salvador, com as presenças do presidente senagalês, Abdoulaye Wade,  e do embaixador  do Senegal no Brasil, Fodé Seck.

Mesmo com o MinC já  tendo delegado, em portaria, à Fundação Palmares a organização da delegação brasileira, entidades baianas reclamam que nenhuma outra medida foi adotada, por esta, e pela Secult, até então, para definir a representação brasileira, e baiana, em especial, no evento.


Albenísio Fonseca

Enquanto 150 entidades baianas, lideradas pelo Núcleo Cultural Niger Okan, fazem força para por o pé na África, e criaram, no final de março, o Comitê Baiano Pró-3ºFesman - Festival Mundial de Arte Negra/ 2009, a acontecer durante todo o mês de dezembro em Dacar, Senegal, o Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura, faz charme.

Mesmo com o MinC já  tendo delegado, em portaria, à Fundação Palmares a organização da delegação brasileira, nenhuma outra medida foi adotada, por esta e pela Secult, até então, para definir a representação brasileira, e baiana, em especial, no evento. O Brasil é o país convidado de honra desta terceira edição do Festival, a ser lançado oficialmente, em terras brasileiras, dia 25 de maio, em Salvador, com as presenças do presidente senagalês, Abdoulaye Wade,  e do embaixador  do Senegal no Brasil, Fodé Seck.

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, e o presidente da Fundação Palmares, Zulu Araújo, participaram, no início de março, da cerimônia de lançamento do 3 º Fesman, em Dacar. No evento, o escritor Abdias Nascimento foi condecorado pelo presidente do Senegal com o diploma de “Embaixador de Boa Vontade do Fesman”. O presidente Abdoulaye externou, inclusive, o desejo de proferir palestra para empresários brasileiros, sobre as possibilidades de intensificar o comércio bilateral.

Patrimônio da humanidade, desde 1978, a ilha de Gorée naquele país, foi um entreposto de escravos, de onde negros africanos eram confinados antes de serem enviados em navios para o Brasil. O Senegal foi libertado do domínio francês em 4 de abril de 1960, sob a liderança do poeta Leopold Senghor, falecido em 2001. 

O governo do Senegal mobiliza uma grande estrutura para sediar o encontro, com espaço de 40 mil m², em Dacar, onde são construídos palcos e salas para apresentações dos espetáculos culturais. Serão erguidas, ainda, cerca de mil tendas para abrigar os cinco mil artistas convidados. Novos prédios são construídos e outros reformados, além do treinamento de oito mil técnicos senegalenses para trabalharem na infra-estrutura do festival.

Os organizadores prevêem a participação de 50 mil convidados estrangeiros, além do envolvimento de um público local estimado em um milhão de pessoas. Para a cerimônia de abertura do Festival se espera a presença de 400 mil pessoas.

O Fesman tem sido um momento relevante para performance e reflexão sobre a contribuição da cultura e estética negra no mundo - tão fundamentais quanto a grega -  e a cerca da resistência à violação dos direitos civis na África e nos países da diáspora. O que artistas e representantes de entidades da sociedade civil defendem, em Salvador,  é a transparência democrática nos critérios de seleção e dotação orçamentária para a participação da delegação brasileira no grandioso evento. Correspondência neste sentido, ainda sem resposta, já foi encaminhada pelo comitê baiano à Fundação Palmares.

 

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Albenísio Fonseca, jornalista

71 9912-5961

albenísio@yahoo.com.br

March 10

Across the carnival (revisited) e O axé sob contingência

Across the carnival
(revisited)


 

Albenísio Fonseca

 

 

Atravessando o carnaval. O título em inglês, permita, é uma paródia à música dos Beatles "Across the universe" que em 4 de fevereiro de 2008, numa estréia absoluta, foi transmitida pela Nasa, como celebração aos seus 50 anos de fundação. Segundo a agência espacial americana, a transmissão  fora orientada na direção da estrela Polaris, a mais brilhante da constelação da Ursa Menor, situada a 431 anos-luz da Terra. 

Mas são os ecos da folia que ainda atravessam minha cabeça dura. O impactante documentário "Cordeiros" de Amaranta Cézar e Ana Rosa Marques, ao revelar trincheiras da luta pelo exíguo território das avenidas do Carnaval, mostra o quanto a organização da festa envolve a divisão e a desigualdade na geografia urbana e na estrutura social de Salvador, em seu micro esplendor de sociedade do espetáculo. Urge que o documentário seja reexibido, inclusive pelos canais das TVs Câmara e Assembléia Legislativa, e  tendo os próprios parlamentares na audiência.

Através das imagens e vozes dos cordeiros, a corda torna-se um limite tênue, perturbador, por si só violento; um muro que explícita tensões entre incluídos e excluídos, brancos e negros, ricos e pobres. Mais que uma metáfora de navios negreiros, trios elétricos a singrar o Atlântico Sul dos circuitos da visibilidade do que se presumia, até então, apenas um grandioso festejo.

No mesmo universo, a iniciativa inteiramente legal de licitação da comercialização da festa, ganha pelo publicitário Nizan Guanaes pela soma de R$ 6 milhões, sabe-se agora, era válida por dois carnavais.

Em meio ao surto de consumo indevido com cartões corporativos por ministros do Governo Lula, outro fato estarrecedor publicado no Diário Oficial da União de 20 de dezembro de 2007, na Seção 1, página 44: duas inexplicáveis doações do Ministério da Cultura à empresa Madeirada Produções e Eventos que somaram R$ 2 milhões como patrocínio por seis shows da cantora Ivete Sangalo em vários estados do país, além de três apresentações, dela mesma, no trio-elétrico Corujas, no carnaval 2008.

Na página 89, outra doação: mais de R$ 400 mil, feita à mesma empresa, como patrocínio ao Bloco Cerveja & Cia para seu desfile pelo circuito Barra-Ondina.

Nada justifica tamanha discrepância. A mão-de-obra, negra e inculta – cerca de 80 mil “trabalhadores” - remunerada a R$ 10, duas garrafinhas de água mineral e dois pacotes de biscoito ao dia, para promover a segurança dos foliões – ricos, brancos, em esmagadora maioria, e o Minc a “carnavalizar” o dinheiro público.

Que universo é esse? Na canção de John Lennon a atravessar estrelas, o mantra repetido: “Nada vai mudar meu mundo” é bem sintomático. Por aqui, nada parece mudar o Brasil. Mas o carnaval baiano – como o país - precisa de um processo de organização que altere as graves distorções nas relações de trabalho que o perpassam. “Jai guru deva OM!” Ou melhor, valha-me meus orixás.

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Albenísio Fonseca é jornalista, poeta e compositor

albenísio@yahoo.com.br 



O axé sob contingência

Albenísio Fonseca

 

A força avassaladora e contagiante da axé music, com seu modelo “made in Bahia for export”  tem sofrido restrições em territórios carnavalescos país afora. Embora seus artistas e produtores sejam promotores de carnavais fora de época, em eventos como o CarNatal e Recifolia, entre outros, quando reina absoluto, o ritmo “axé” foi proibido, diria mesmo censurado, nos carnavais de Recife, Olinda e nas cidades históricas de Minas. Em Ouro Preto , Mariana e São João Del Rey a música baiana só pode ser tocada em ambientes fechados, fora do circuito oficial da festa, e sob cobrança de ingressos.

Em Olinda, por decretos do Executivo, ficaram proibidos o beijo na boca, sob a alegação de que estariam ocorrendo “arrastões de assédio” – legislação burlada, principalmente nos redutos gays da cidade em festa; e a circulação de táxis, restrita apenas à frota local. No Recife Antigo, a interdição à axé music nos fez contemplar tradicionais manifestações pernambucanas. Dorival Caymmi, se vivo estivesse, poderia reencontrar, sob a chuva intensa, sua “Dora, rainha do frevo e do maracatu”.

Em Salvador cada vez mais ficam menos tênues os limites da geografia do sagrado e do profano no ciclo de festas, vide a revitalização proporcionada por Gerônimo nas escadarias do Passo. Uma intervenção anterior ao seu reinado de Momo. Em Pernambuco, numa rota inversa à roda viva da dinâmica cultural – e mesmo cabendo a Caetano Veloso proceder à abertura da pernambucália folia esse ano – o impedimento a que o ritmo baiano passasse a “cantar de galo” compõe, muito mais que uma reserva de mercado, a legítima preservação do que há de mais genuíno nas expressões populares do estado vizinho.

Por aqui, temos a festejar o tombamento do Carnaval de Maragojipe como patrimônio imaterial da Bahia e o investimento do estado nos carnavais de Palmeiras e Rio de Contas, que têm manifestações culturais tradicionais e peculiares. Festejar, também, o toque de Midas de Carlinhos Brown, extensivo à sua magnífica presença na escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, com seus tambores campeões do Carnaval carioca, e sua quase-marcha “Vai chamar Dalila”, na voz de Ivete Sangalo, mais tocada do período momesco (e que já virou gíria no submundo), em concorrida disputa com o mega axé “Beijar na boca”, da Cláudia Leite, que irritaria o prefeito de Olinda.

Se me coube um dia, em meados dos anos 80, ostentar o então pejorativo “axé music”, em caráter positivo, como título de reportagem,  para a nova onda musical baiana, e sou dos que integram o cordão do “É probido proibir”, tenho que admitir a importância da política cultural pernambucana, acenando para o coração do pierrô Alceu Valença a cantar nossa pluralidade cultural da sacada do casarão onde mora em Olinda.

No mais, lamentar ter perdido o engarrafamento de garçons, bandejas de whisky à mão cheia, no farto (Fausto) dispêndio do open bar oferecido no camarote do governo baiano. Contingenciamento à parte, é claro. Axé!

-------------------------------------------- Albenísio Fonseca é jornalista, poeta e compositor albenisio@yahoo.com.br

 
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